domingo, 20 de junho de 2021

 Identidade

 

Afirmo sempre que sou angolana, que nasci em Angola. É uma espécie de bandeira, uma afirmação da minha identidade.

Uma vez, há muitos anos atrás, disse perante uma plateia cheia de africanos, num Encontro de Escritores Africanos, no Porto, que adorava a literatura africana, em especial Pepetela, porque era através da literatura africana que eu aprendia mais sobre o meu país, sobre a minha identidade. Acrescentaria hoje que, para além de me "encher as medidas", ajuda-me a refletir sobre mim, encontro dilemas comuns, enfim, sinto-me "em casa".

Estou a ler mais um livro de Agualusa. Neste livro fala-se, entre outras coisas, na questão da cor da pele, a nacionalidade, a ideia dos europeus em relação aos negros, em especial, aos autores. De qualquer maneira, li uma coisa que me surpreendeu e, ao mesmo, me pôs a pensar: ”Na minha biblioteca, como na vida, não divido os livros pela nacionalidade dos autores”(p. 98, l. 6) – Diz a escritora nigeriana, Cornelia Oluokun.

A minha biblioteca está dividida por autores internacionais, e durante a última arrumação juntei ficção e não-ficção nesta categoria; Biblioteconomia; Autores africanos; José Saramago; Umberto Eco; livros infantis (que absolutamente me fascinam!).

Já estão a ver o que vai acontecer? Muito em breve a minha biblioteca vai ser reorganizada!!

Cornelia Oluokun afirma ainda que não pergunta às pessoas de onde são. "O que quero saber é quem são. Então pergunto-lhes o que gostam de ler.” (p. 98, l.7).

Bom, isto será algo difícil de fazer…

Confesso que fico feliz quando encontro “matrícias” e “matrícios” (Angola é a minha “Mátria”). (Estive em abril de 2001 em Nova York, e era com alegria que ouvia a língua portuguesa, era reconfortante, apetecia correr e abraçá-los! Já sentiram isso?)

Esclareço também que a cor da pele não me causa medo ou ansiedade, ou estranheza, pelo contrário, é familiaridade, é reconhecimento, é segurança.

Conto com frequência a história de quando fui a Londres a primeira vez e aceitei boleia de um jovem pai que tinha deixado o filhote no hospital, e me levou até um ponto onde eu apanharia um táxi com facilidade. (Como é que eu o descrevo? Alto, com barba, vestido com calças de ganga e um polo, e... de pele negra.) Para o que estou a contar esta informação é relevante (cor de pele), quero mostrar que não tenho receio, que é-me natural confiar nas pessoas. E que dei os primeiros passos da minha vida entre pessoas brancas e negras.

Na mesma altura, em Londres, partilhava a casa com italianos e quando disse que ia a Kingston, ficaram possessos, e avisaram-me para não ir, falaram-me do receio que tinham… Ah! Eu fui! Fui comprar t-shirts do Bob Marley.

Percebem?

Eu não sou negra. Mas os meus ritmos são africanos, as cores, os padrões, até lavo o chão como as africanas (quem mo disse foi uma senhora escocesa casada com um ganês, que quando um dia me apresentou ao marido disse: “Esta é a Hilda, diz a toda a gente que é angolana.”).

Cornelia diz que se sente “uma nova-iorquina que, por acaso, é também nigeriana” (p. 97, l. 3  a contar do fim da página).  Adorei!! A frase normalmente é dita assim: uma nova-iorquina que, por acaso, nasceu na Nigéria. Um mundo de diferença!!, se querem saber.

Hoje posso dizer, com todo o orgulho, que sou uma portuguesa que, por acaso, é também angolana.

Levei 52 anos e cinco meses a encontrar a expressão certa!