quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Osvaldo e o gato: um conto intersecionista  

O gato cinzento apareceu no Pátio do Visconde com um olhar carregado de séculos e um passo lento e seguro de quem sabe o que faz e para onde vai.
Osvaldo, quando nós ainda não sabíamos o seu nome, passeava no largo Sumo Graal, procurando amigos deixados no seu país, quando à janela rectangular e metálica, viu um olhar azul e inquisitivo, de alguém também vindo de outro país, observando-o com atenção.
Cinzas passeia-se pelo enorme corredor, espreita as salas solarengas, de tecto alto, cheias de Sol – perfeitas para um gato sério e a sério, como este. Com a cauda sempre a abanar, excepto quando dorme. (Interessante!, quando dorme, fá-lo de uma forma tão serena e profunda que é um gosto vê-lo!).
Osvaldo vem sempre hesitante, expressando a sua gaguez até na forma como entra na biblioteca, bamboleando ligeiramente o corpo, porque vem pé ante pé e de forma cautelosa. Osvaldo é uma pessoa simpática, com sentido de humor, inteligente, mas a sua expressão é séria, como quem pensa duas vezes a mesma coisa ou sobre a mesma coisa antes de falar. É uma pessoa agradável. Não é leitor da Biblioteca. Vem consultar o correio eletrónico.
Grey, o nome original de Cinzas, é um gato muito querido, grande e fofo, todos os cobiçam. Quase houve uma guerra que ia chegando à barra do tribunal por causa da posse de Grey. Grey não está ralado com isso, ele é de quem quer, quando quer e pelo tempo que entender. E, depois que foi abandonado, está mais certo disso. Ama quem o ama, mas não sabe até quando.
Podíamos até pensar que Osvaldo vem visitar a menina da biblioteca, mas não é isso. Osvaldo é uma pessoa correta e resolvida. A menina da biblioteca também. São ambos cordiais e existe entre eles uma relação de proximidade porque Henriqueta do alto da sua calma e paciência, entende e completa como ninguém a pessoa ansiosa e vacilante que é Osvaldo.

Qualquer semelhança com a irrealidade e ultra ficção 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Tristeza, né?

Durante uma viagem não fui capaz de deixar de reparar na cor dos carros - as marcas ficam para outro dia - os carros eram quase todos pretos ou de qualquer outra cor escura. Se não estou em erro, o preto, exceptuando na raça humana, sempre foi uma cor de prestígio, de classe.
Eu própria gosto da cor preta, vestida de preto sinto-me confortável, protegida, e sim também, no fundo, com classe.

Nos Anos 60, os carros, as roupas, os sorrisos no rosto das pessoas, tudo era colorido.
Eu nasci nos Anos 60, por isso o meu guarda roupa é colorido e o meu carro preferido é o Saab 900s cabriolet amarelo.

Para além das cores que se resumem ao preto, os modelos também são todos coisa ou menos coisa, iguais, apenas o Chrysler PT Cruiser, mais uma vez friso que na minha opinião, consegue ser original.
Sim, e nos Anos 60 tínhamos um vasto leque de escolhas, o Carocha, o Austin mini, Pontiac, Fiat 600, Citroen DS 21.

Vivemos obcecados por dinheiro, por posição - ou não somos nós a nação que venera os "doutores", sejam eles "da mula ruça" ou não - tudo o que for preconceituosamente símbolo de classe. 
E o resultado? 
No tempo da Globalização, nós somos todos cinzentos, tristes, desconfiados, invejosos. Só a cor preta poderia realmente se ajustar a esta maneira de ser e estar.
Tristeza, né?


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Bibliotecária de província

Aceitamos o desafio de instalar uma nova biblioteca, adquirir documentos, tratamento técnico, organização de espaços, organização de serviços. 
Uma vila, achei que estava à altura e era, de certa forma, o que eu desejava fazer.
Em dezasseis anos, ainda muito falta fazer, mas as condições não permitem. 
Mas não escrevo este texto para me queixar, porque não tenho queixas para fazer, passei essa fase.

Uma bibliotecária de província não tem as mesmas chances de crescer em termos biblioteconómicos, os empréstimos realizados online - a nossa base de dados nem está online!!, as caixas de devolução nocturna de documentos, a quantidade de leitores, as solicitações de informação, sistemas de alarme,clubes de leitura, conferências, etc, etc, etc.

Uma bibliotecária de província rega as plantas, varre o chão, limpa o pó, fala com quase todas as pessoas da comunidade com a ideia de as conquistar (para a biblioteca), faz animação: lê e conta histórias, faz pinturas faciais, não participa em reuniões de planeamento, faz gestão da biblioteca, criando documentos descritivos, orientadores, como se fosse um exercício de simulacro.

Se por acaso quiser voar mais alto, este é o currículo que tenho para mostrar: muito humanismo, profissionalismo limitado pelo nível e variedade de experiências.

"Running to stand still".


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Café amargo

Uma noite fresca, uma manhã de Outono. A vila praticamente vazia, alguns carros estacionados, ou parados em cima do passeio e os brilhantes semáforos a funcionar!
Parámos o Volks em cima do passeio, perto dos correios e fomos tomar café. O café estava vazio, não é de admirar, tantos cafés e cada vez menos gente.
A dona do café é uma senhora simpática de traços finos e uns expressivos olhos azuis que quando os seus lábios sorriem, mostram um rosto traquina de criança, serena e feliz. Mas a vida não é fácil...
Hoje os olhos azuis encheram-se de lágrimas ao contar como o seu filho teve de partir a semana passada à procura de uma vida melhor, num outro país onde há esperança e onde em breve a sua família se juntará a ele.
Logo de manhã esta sensação de que estamos a perder, a perder pessoas, a perder terreno debaixo dos nossos pés,a empenhar o nosso futuro, o futuro da pátria que pouco se preocupa connosco. 
Ficam os resignados pela idade, pelos laços familiares, quem sabe se apenas até um dia?
Sim, o café tinha um sabor amargo, uma mistura de impotência, revolta, angústia.