Identidade
Afirmo sempre que sou angolana, que
nasci em Angola. É uma espécie de bandeira, uma afirmação da minha identidade.
Uma vez, há muitos anos atrás, disse perante uma plateia cheia
de africanos, num Encontro de Escritores Africanos, no Porto, que adorava a
literatura africana, em especial Pepetela, porque era através da literatura africana
que eu aprendia mais sobre o meu país, sobre a minha identidade. Acrescentaria hoje que, para além de me "encher as medidas", ajuda-me a refletir sobre mim, encontro dilemas comuns, enfim, sinto-me "em casa".
Estou a ler mais um livro de Agualusa. Neste livro fala-se, entre outras coisas, na questão da cor da pele, a nacionalidade, a ideia dos europeus em relação aos negros,
em especial, aos autores. De qualquer maneira, li uma coisa que me surpreendeu
e, ao mesmo, me pôs a pensar: ”Na minha biblioteca, como na vida, não divido os
livros pela nacionalidade dos autores”(p. 98, l. 6) – Diz a escritora
nigeriana, Cornelia Oluokun.
A minha biblioteca está dividida por autores internacionais, e durante a última arrumação juntei ficção e não-ficção nesta categoria; Biblioteconomia; Autores
africanos; José Saramago; Umberto Eco; livros infantis (que absolutamente me fascinam!).
Já estão a ver o que vai acontecer? Muito em breve a
minha biblioteca vai ser reorganizada!!
Cornelia Oluokun afirma ainda que não pergunta às pessoas
de onde são. "O que quero saber é quem são. Então pergunto-lhes o que gostam de
ler.” (p. 98, l.7).
Bom, isto será algo difícil de fazer…
Confesso que fico feliz quando encontro “matrícias” e “matrícios”
(Angola é a minha “Mátria”). (Estive em abril de 2001 em Nova York, e era com alegria que ouvia a língua portuguesa, era reconfortante, apetecia correr e abraçá-los! Já sentiram isso?)
Esclareço também que a cor da pele não me causa medo ou
ansiedade, ou estranheza, pelo contrário, é familiaridade, é reconhecimento, é
segurança.
Conto com frequência a história de quando fui a Londres a primeira vez e aceitei boleia de um jovem pai que tinha deixado o filhote no hospital, e me levou até um ponto onde eu apanharia um táxi com facilidade. (Como é que eu o descrevo? Alto, com barba, vestido com calças de ganga e um polo, e... de pele negra.) Para o que estou a contar esta informação é relevante (cor de pele), quero mostrar que não tenho receio, que é-me natural confiar nas pessoas. E que dei os primeiros passos da minha vida entre pessoas brancas e negras.
Na mesma altura, em Londres, partilhava a casa com italianos e quando
disse que ia a Kingston, ficaram possessos, e avisaram-me para não ir, falaram-me
do receio que tinham… Ah! Eu fui! Fui comprar t-shirts do Bob Marley.
Percebem?
Eu não sou negra. Mas os meus ritmos são africanos, as cores, os padrões, até lavo o chão como as africanas (quem mo disse foi uma senhora escocesa casada com um ganês, que quando um dia me apresentou ao marido disse: “Esta é a Hilda, diz a toda a gente que é angolana.”).
Cornelia diz que se sente “uma nova-iorquina que, por acaso,
é também nigeriana”
(p. 97, l. 3 a contar do fim da página). Adorei!! A frase normalmente é dita assim: uma
nova-iorquina que, por acaso, nasceu na Nigéria. Um mundo de diferença!!, se
querem saber.
Hoje posso
dizer, com todo o orgulho, que sou uma portuguesa que, por acaso, é também
angolana.
Levei 52 anos e cinco meses a encontrar a expressão certa!
