quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Bibliotecária de província

Aceitamos o desafio de instalar uma nova biblioteca, adquirir documentos, tratamento técnico, organização de espaços, organização de serviços. 
Uma vila, achei que estava à altura e era, de certa forma, o que eu desejava fazer.
Em dezasseis anos, ainda muito falta fazer, mas as condições não permitem. 
Mas não escrevo este texto para me queixar, porque não tenho queixas para fazer, passei essa fase.

Uma bibliotecária de província não tem as mesmas chances de crescer em termos biblioteconómicos, os empréstimos realizados online - a nossa base de dados nem está online!!, as caixas de devolução nocturna de documentos, a quantidade de leitores, as solicitações de informação, sistemas de alarme,clubes de leitura, conferências, etc, etc, etc.

Uma bibliotecária de província rega as plantas, varre o chão, limpa o pó, fala com quase todas as pessoas da comunidade com a ideia de as conquistar (para a biblioteca), faz animação: lê e conta histórias, faz pinturas faciais, não participa em reuniões de planeamento, faz gestão da biblioteca, criando documentos descritivos, orientadores, como se fosse um exercício de simulacro.

Se por acaso quiser voar mais alto, este é o currículo que tenho para mostrar: muito humanismo, profissionalismo limitado pelo nível e variedade de experiências.

"Running to stand still".


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Café amargo

Uma noite fresca, uma manhã de Outono. A vila praticamente vazia, alguns carros estacionados, ou parados em cima do passeio e os brilhantes semáforos a funcionar!
Parámos o Volks em cima do passeio, perto dos correios e fomos tomar café. O café estava vazio, não é de admirar, tantos cafés e cada vez menos gente.
A dona do café é uma senhora simpática de traços finos e uns expressivos olhos azuis que quando os seus lábios sorriem, mostram um rosto traquina de criança, serena e feliz. Mas a vida não é fácil...
Hoje os olhos azuis encheram-se de lágrimas ao contar como o seu filho teve de partir a semana passada à procura de uma vida melhor, num outro país onde há esperança e onde em breve a sua família se juntará a ele.
Logo de manhã esta sensação de que estamos a perder, a perder pessoas, a perder terreno debaixo dos nossos pés,a empenhar o nosso futuro, o futuro da pátria que pouco se preocupa connosco. 
Ficam os resignados pela idade, pelos laços familiares, quem sabe se apenas até um dia?
Sim, o café tinha um sabor amargo, uma mistura de impotência, revolta, angústia.