Nos meandros da história do nosso
dia-a-dia
Acordo e olho para o relógio, uma
invenção da Europa Medieval. Sinto a maciez do meu pijama, peça de vestuário
originário da Índia. Espreguiço-me, deitada na cama (feita segundo um modelo
concebido primitivamente na Ásia Menor). Levanto-me e vou até à casa de banho,
tiro da prateleira de vidro, inventado pelos antigos egípcios, a escova de
dentes, que embora já utilizadas cerca de 3.000 anos a.C., assumiu a forma que
conhecemos pelas mãos dos chineses, e escovo pacientemente os dentes… alguns de
porcelana (hihihi), criada na China. Tomo banho na banheira inspirada no modelo de sanitários romano, ensaboando-me com o sabonete inventado pelos antigos
gauleses. Enrolo-me na toalha turca criada pelos turcos(!), e saio da banheira,
pondo os pés no mosaico, cujo uso começou no Próximo Oriente, e salto
imediatamente para o tapete, invenção dos persas. Enquanto isso, o marido faz a
barba, um ritual instituído pelos sacerdotes no antigo Egipto. Visto-me com
roupas vulgares, cuja forma é derivada dos vestuários de peles dos antigos nómadas
das estepes asiáticas e abotoo-o os botões cujos protótipos apareceram na
Europa no fim da Idade da Pedra. Calço “revestimentos rígidos” feitos de couro
preparado por um processo inventado no Egipto. Coloco ao pescoço uma écharpe (palavra francesa) de cores
vivas, vestígio dos xailes que usavam aos ombros os croatas no séc. XVII. Desço
as escadas para tomar o mata-bicho, (a versão definida como “alimento que se
come para quebrar o jejum” e não na versão “pequena quantidade de bebida alcoólica que se toma em jejum”). Preparo
uma laranja, oriunda do Algarve, que começo a comer com garfo, uma invenção
medieval de Itália. Acompanho a laranja com uma torrada de pão integral barrada com
manteiga, que era usada como cosmético no Oriente. Antes de sair de casa, miro-me ao espelho,
velha invenção mediterrânea, pego na carteira e vou até ao Café Central (todas
as localidades têm um!) onde vou tomar um cafezinho proveniente de uma planta
da Abissínia. Mexo o café com uma colher, cópia do utensílio romano. Enquanto tomo
o café, leio as notícias do dia em letras inventadas pelos antigos
semitas, impressas através de um processo inventado por Gutenberg, na Alemanha,
sobre um material inventado na China. Leio, envolvida pela fumaça de cigarros (inventados
no México) e o aroma de um charuto (inventado no Brasil). Agradeço ao Deus
hebreu, numa linguagem indo-europeia por ser cem por cento (sistema decimal
inventado pelos gregos) humana e poder saborear a herança dos nossos
antepassados. Por fim, pago esse café com moedas inventadas no antigo Reino da
Lídia, e parto, feliz, para mais um dia na Biblioteca (palavra grega, “depósito
de livros”… à letra... ou não...)
Texto inspirado num artigo da Reader’s
Digest de Outubro de 1958, da autoria de Ralph Linton
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