sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Nos meandros da história do nosso dia-a-dia

Acordo e olho para o relógio, uma invenção da Europa Medieval. Sinto a maciez do meu pijama, peça de vestuário originário da Índia. Espreguiço-me, deitada na cama (feita segundo um modelo concebido primitivamente na Ásia Menor). Levanto-me e vou até à casa de banho, tiro da prateleira de vidro, inventado pelos antigos egípcios, a escova de dentes, que embora já utilizadas cerca de 3.000 anos a.C., assumiu a forma que conhecemos pelas mãos dos chineses, e escovo pacientemente os dentes… alguns de porcelana (hihihi), criada na China. Tomo banho na banheira inspirada no modelo de sanitários romano, ensaboando-me com o sabonete inventado pelos antigos gauleses. Enrolo-me na toalha turca criada pelos turcos(!), e saio da banheira, pondo os pés no mosaico, cujo uso começou no Próximo Oriente, e salto imediatamente para o tapete, invenção dos persas. Enquanto isso, o marido faz a barba, um ritual instituído pelos sacerdotes no antigo Egipto. Visto-me com roupas vulgares, cuja forma é derivada dos vestuários de peles dos antigos nómadas das estepes asiáticas e abotoo-o os botões cujos protótipos apareceram na Europa no fim da Idade da Pedra. Calço “revestimentos rígidos” feitos de couro preparado por um processo inventado no Egipto. Coloco ao pescoço uma écharpe (palavra francesa) de cores vivas, vestígio dos xailes que usavam aos ombros os croatas no séc. XVII. Desço as escadas para tomar o mata-bicho, (a versão definida como “alimento que se come para quebrar o jejum” e não  na versão “pequena quantidade de bebida alcoólica que se toma em jejum). Preparo uma laranja, oriunda do Algarve, que começo a comer com garfo, uma invenção medieval de Itália. Acompanho a laranja com uma torrada de pão integral barrada com manteiga, que era usada como cosmético no Oriente.  Antes de sair de casa, miro-me ao espelho, velha invenção mediterrânea, pego na carteira e vou até ao Café Central (todas as localidades têm um!) onde vou tomar um cafezinho proveniente de uma planta da Abissínia. Mexo o café com uma colher, cópia do utensílio romano. Enquanto tomo o café, leio as notícias do dia em letras inventadas pelos antigos semitas, impressas através de um processo inventado por Gutenberg, na Alemanha, sobre um material inventado na China. Leio, envolvida pela fumaça de cigarros (inventados no México) e o aroma de um charuto (inventado no Brasil). Agradeço ao Deus hebreu, numa linguagem indo-europeia por ser cem por cento (sistema decimal inventado pelos gregos) humana e poder saborear a herança dos nossos antepassados. Por fim, pago esse café com moedas inventadas no antigo Reino da Lídia, e parto, feliz, para mais um dia na Biblioteca (palavra grega, “depósito de livros”… à letra... ou não...)


Texto inspirado num artigo da Reader’s Digest de Outubro de 1958, da autoria de Ralph Linton

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