quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Osvaldo e o gato: um conto intersecionista  

O gato cinzento apareceu no Pátio do Visconde com um olhar carregado de séculos e um passo lento e seguro de quem sabe o que faz e para onde vai.
Osvaldo, quando nós ainda não sabíamos o seu nome, passeava no largo Sumo Graal, procurando amigos deixados no seu país, quando à janela rectangular e metálica, viu um olhar azul e inquisitivo, de alguém também vindo de outro país, observando-o com atenção.
Cinzas passeia-se pelo enorme corredor, espreita as salas solarengas, de tecto alto, cheias de Sol – perfeitas para um gato sério e a sério, como este. Com a cauda sempre a abanar, excepto quando dorme. (Interessante!, quando dorme, fá-lo de uma forma tão serena e profunda que é um gosto vê-lo!).
Osvaldo vem sempre hesitante, expressando a sua gaguez até na forma como entra na biblioteca, bamboleando ligeiramente o corpo, porque vem pé ante pé e de forma cautelosa. Osvaldo é uma pessoa simpática, com sentido de humor, inteligente, mas a sua expressão é séria, como quem pensa duas vezes a mesma coisa ou sobre a mesma coisa antes de falar. É uma pessoa agradável. Não é leitor da Biblioteca. Vem consultar o correio eletrónico.
Grey, o nome original de Cinzas, é um gato muito querido, grande e fofo, todos os cobiçam. Quase houve uma guerra que ia chegando à barra do tribunal por causa da posse de Grey. Grey não está ralado com isso, ele é de quem quer, quando quer e pelo tempo que entender. E, depois que foi abandonado, está mais certo disso. Ama quem o ama, mas não sabe até quando.
Podíamos até pensar que Osvaldo vem visitar a menina da biblioteca, mas não é isso. Osvaldo é uma pessoa correta e resolvida. A menina da biblioteca também. São ambos cordiais e existe entre eles uma relação de proximidade porque Henriqueta do alto da sua calma e paciência, entende e completa como ninguém a pessoa ansiosa e vacilante que é Osvaldo.

Qualquer semelhança com a irrealidade e ultra ficção 

2 comentários:

  1. Como sempre, "ler-te" é como que um bálsamo para as possiveis feridas que transportamos... bem hajas meu amor!

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  2. que bom. adorei o texto e tudo o resto. beijinhos e xiis para vós

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